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Um real de pão.
Ontem parei na padaria e comprei seis pães. Deu uns três ou quatro reais. Paguei no crédito e foi tudo tão automático que sequer analisei o peso daquilo. Não que seja um valor exorbitante, não que tenha feito um grande buraco no meu orçamento, mas aquele valor em uma pequena sacolinha de pão me fez, agora, refletir sobre o tempo e o quanto ele é cruel. Foram quatro pães franceses e dois doces, daqueles amarelinhos com côco por cima, uma delícia.
Quando criança, minha mãe me mandava comprar pão. Lá voltava eu com uma sacola cheia: eram dez pães por um real. A moeda se desvalorizou? O pão inflacionou? Até pode ser. Mas, acima de tudo, o famigerado tempo engoliu nossa simplicidade de comprar muito com pouco.
Anos se passaram dos dez pães para hoje. O que ficou de saldo não foram só os pães que faltaram de lá pra cá, mas toda uma sorte de vivências que se perderam no tempo. A infância passou. Não brinco mais na rua até tarde, não perco mais o tampo do dedão ao chutar uma bola no asfalto, descalço. Não durmo mais no sofá assistindo TV e acordo na cama sem entender o que aconteceu e como fui parar lá.
Hoje eu sei quanto custa o pão, a feira, a saudade, a angústia, o medo de não conseguir pagar as contas, a ausência da minha mãe… É caro. Custa muito mais do que o dinheiro pode pagar.
Aqui, escrevendo este texto, me chega uma mensagem do amigo Carlo Bandeira dizendo que o futuro é hoje. Por certo, a sabedoria de Bandeira me relembra a violência das mudanças que só o tempo consegue fazer. O futuro não esperou — chegou. Pegou-me desprevenido, de susto, sem preparo, de guarda baixa. Deu-me um cruzado de direita e fui à lona.
Não compro mais dez pães com um real. O futuro chegou, o pão subiu de preço, diminuiu na sacola. E eu? Sigo lutando contra o tempo e perdendo cada assalto nesse ringue. Muitos se vão, e não há inflação nisso. O custo da vida já não cabe mais na humilde carteira de criança, cheia de folhas de caderno cortadas para dar volume.
Vai com calma, tempo.
Professor Thiago Abel
Comunicação por instinto;
Professor de história e atualidades;
Especialista em Psicopedagogia;
De esquerda;
Defensor dos direitos humanos;
Em constante adaptação pra encontrar a melhor versão de mim mesmo.
Blog voltado pras questões atuais que nos afligem. Educação, política, comportamento e tudo mais que me inquietar a opinar.
Sintam-se em casa!
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