“Não segui meu instinto”, diz agente que atendeu sequestradores do 11/9

Por CNN Brasil 11/09/2026 16h04
Por CNN Brasil 11/09/2026 16h04
“Não segui meu instinto”, diz agente que atendeu sequestradores do 11/9
Michael Tuohey, agente que atendeu sequestradores do 11/9 - Foto: Reuters

Como tantas outras pessoas afetadas pelo 11 de Setembro, Michael Tuohey vive com perguntas sem resposta.

Como agente de atendimento ao cliente de uma companhia aérea, Tuohey ajudou dois dos sequestradores a fazer o check-in de seus voos no Aeroporto Internacional de Portland, no Maine, ponto de partida de uma viagem que terminaria com o voo 11 da American Airlines colidindo com a Torre Norte do World Trade Center.

Outro avião atingiu a Torre Sul, seguido por um terceiro que se chocou contra o Pentágono e um quarto que caiu na Pensilvânia. Cerca de 3.000 pessoas morreram. O dia representou um ataque sem precedentes, que deixou dezenas de milhares de cônjuges, pais e filhos enlutados e chocou o mundo.

Os acontecimentos de 11 de setembro, no início do primeiro mandato do presidente George W. Bush, transformaram profundamente a política de segurança nacional dos Estados Unidos e deram início a guerras que duraram décadas e nas quais mais de 900 mil pessoas morreram, principalmente no Iraque e no Afeganistão.

Eles também mudaram o rumo da vida de indivíduos, levando alguns filhos de vítimas a seguir os pais em carreiras de emergência, enquanto outros foram conduzidos para as áreas militar, médica ou de serviço público. Sobreviventes, equipes de emergência e milhões de americanos ainda lidam com o legado daquele dia.

Uma manhã de rotina para Tuohey na Nova Inglaterra mudou quando Mohammad Atta e Abdul Aziz al Omari chegaram apenas meia hora antes do voo.

Tuohey escaneou as passagens de papel dos dois homens para verificar se haviam sido compradas recentemente ou pagas em dinheiro, o que teria levantado sinais de alerta mesmo pelos padrões anteriores ao 11 de Setembro. Mas as passagens haviam sido compradas semanas antes, pagas com cartões de crédito e eram para a primeira classe.

"Eles nunca chegaram a esse próximo nível. Segui todas as orientações, fiz o meu trabalho", disse ele.

Mais tarde, após os ataques, as falhas da inteligência americana que não conseguiram detectar o plano da Al Qaeda seriam amplamente analisadas. O Departamento de Segurança Interna seria criado, os procedimentos de segurança nos aeroportos seriam reformulados e o país adotaria uma série de novas leis de segurança.

Mas, enquanto os primeiros raios de sol aqueciam o céu a leste de Portland naquela manhã fresca de outono, Tuohey não tinha como saber dos horrores que aquele dia traria.

"Meu instinto estava certo, mas havia leis, havia leis contra a prática de discriminação por perfil", disse Tuohey, hoje com 80 anos e aposentado. "Eu não segui meu instinto. E acabou sendo uma coisa terrível", disse ele, de sua casa no Maine.

Ele permaneceu no emprego por mais três anos. Depois de uma despedida organizada pela U.S. Airways, Tuohey disse que começou a ter dificuldades para lidar com as lembranças de 11 de setembro.

"Eu ia até a caixa de correio e um carro passava, e eu via Mohammad Atta olhando para mim de dentro do carro. Eu acabava rindo e dizia: "Vamos, você está ficando maluco". Isso aconteceu várias vezes. Toda vez que alguém entrava na minha rua, se eu estivesse do lado de fora, corria para dentro de casa. Eu perguntava: 'O que estou fazendo?'"

Sua esposa também chamou sua atenção para o fato de que ele costumava passar o tempo sentado dentro do carro estacionado na entrada de casa ou permanecer no banho sem perceber o tempo passar. Então, ele aceitou que precisava procurar ajuda.

Logo foi diagnosticado com um transtorno dissociativo e passou por cerca de seis meses de terapia, durante os quais revivia o dia em suas sessões.

Ele disse que, ao final do tratamento, já não via Atta e começou a se sentir "normal" novamente.

Nenhuma terapia, é claro, pode mudar os acontecimentos de 11 de setembro. Mas ela ajudou Tuohey a se aproximar de um lugar de aceitação em relação a um capítulo de seu passado.

"Não é que eu estivesse certo. É só que isso poderia ter mudado alguma coisa. Não que teria mudado, mas poderia ter mudado. Quem sabe?"