Associação de artesãos em Arapiraca muda vida de pessoas por meio da coletividade e empreendedorismo

Agreal realiza curso de fuxico atualmente e conta com editais para expandir atuação.

Por Gustavo Santos 07/06/2026 19h07 - Atualizado em 07/06/2026 21h09
Por Gustavo Santos 07/06/2026 19h07 Atualizado em 07/06/2026 21h09
Associação de artesãos em Arapiraca muda vida de pessoas por meio da coletividade e empreendedorismo
Produtos feitos com fuxico - Foto: Gustavo Santos

Com 20 anos de história e cerca de 60 trabalhadores inscritos com a Carteira Nacional do Artesão, a Associação dos Artesãos do Agreste Alagoano (Agreal) é responsável por mudar a vida de pessoas que moram em Arapiraca e outras cidades da região por meio da troca humana, empreendedorismo e cultura.

Presidida por Jânio Oliveira e localizada no bairro Novo Horizonte, em Arapiraca, a Agreal realiza oficinas, cursos, exposições e workshops, entre outras atividades, algumas exclusivamente para a população LGBTQIAPN+, idosos e Pessoas com Deficiência (PcD).

Neste mês de junho, por exemplo, a entidade promove um curso de moda gratuito aos sábados com mais de 40 alunos. Ele é voltado ao fuxico, técnica artesanal que consiste na produção de “trouxinhas” com tecidos de diversas cores e estampas para bolsas, almofadas e até roupas.

Apesar de ter sido fundada em 2006, a associação só passou a fazer parte de editais recentemente e, dessa forma, fortaleceu sua atuação por meio de políticas públicas e parcerias com empresas como o Banco Itaú. Os recursos dos editais possibilitam a compra de materiais para os artesãos, atendimento psicossocial e o suporte do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

A turma atual do curso de moda recebe 36 horas de aulas de empreendedorismo do Sebrae, aprendendo desde precificação ao modelo de negócios Canvas.

Uma das pessoas que fazem parte dessa turma é Maria Magali, moradora do bairro Capiatã. O artesanato ganhou grande importância na vida dela ao começar a participar em 2025, logo após receber um convite. Hoje, a venda de produtos ajuda nas contas de casa.

Magali (à esquerda) e Luciene (à direita). Foto: Gustavo Santos

“Depois da primeira aula que eu tive, eu comecei a gostar. Gostar de aprender a técnica do fuxico, do acolhimento que eu tive quando cheguei, da companhia das outras alunas que aqui ainda estão até hoje. Então, assim, foi um lugar que acolheu, abraçou e nos deixa à vontade pra gente produzir, que todo artesão tem essa coisa de querer criar, de querer inventar uma coisa, de querer fazer algo diferente. E aqui a gente tem toda essa liberdade. Então, isso me me cativou, me conquistou e me fez permanecer aqui na associação, até hoje, e pretendo continuar”, disse.

Entre um movimento e outro com a agulha, novas peças acabam sendo criadas e memórias são construídas através da coletividade.

“A gente estava comentando ali no grupo que, assim, por sermos a maioria mulheres, aí quando você diz assim: ‘Ah, que tema a gente pode abordar na conversa de hoje?’. Aí fica aquela coisa: ‘Não, vamos falar sobre isso, sobre aquilo’. Eu disse: ‘Olha, independente do tema que for escolhido pra gente conversar hoje, vai ser bom para todas, porque todas vivem a mesma a mesma dor, digamos assim, né?’. É perda, é solidão, é a frustração financeira, é algum atrito com o companheiro. Aí, querendo ou não, é uma coisa que todas se identificam e acabam compartilhando aquilo e se aliviando”, afirma Magali.

Moradora do bairro Zélia Barbosa Rocha, Luciene Pereira é oficineira e o empreendedorismo surgiu como uma alternativa após ficar desempregada no Rio de Janeiro durante a pandemia. Ainda na capital carioca, trabalhou com chocolates e cestas antes de viajar para Alagoas.

Luciene (à esquerda) e Jânio (à direita). Foto: Gustavo Santos

“Aqui eu fui chamada para ir para o Mercado do Artesanato Margarida Gonçalves, na Praça do Artesanato. E depois de um certo tempo, acho que uns dois anos atrás, eu meio que fiquei fria por conta de alguma coisa. E aí eu desisti... Aí eu conheci o Jânio também na pandemia, e aí o Jânio me convidou para fazer um curso de bolsa de papel, ensinar, né? E eu vim e fiz o curso, todo mundo, todo mundo gostou. E agora me chamou pro fuxico. E eu já voltei a fazer peças, aquelas peças de artesanato que tem ali de juto são minhas, eu trabalho com a juta. Na verdade eu trabalho com tudo: com crochê, com juta, com biscuit”.

Luciene, que tem o trabalho como artesã como sua principal fonte de renda, destaca que o encontro semanal é um momento de alegria, especialmente pelo saber compartilhado.

“O prazer de estar aqui nesse lugar é maravilhoso. Esse lugar é aconchegante, isso aqui é uma paz que dá em você, sabe? Uma tranquilidade que parece que a semana... Como é só um dia na semana, parece que a semana é mais longa do que eu nunca vi tão longa. Porque é muito prazeroso, eu amo arte, eu adoro trabalhar. Eu adoro ensinar, junto com esse pessoal aqui. Mas é muito bom a gente ficar junto e um ajudando o outro, né? Porque a gente ensina, mas a gente aprende todo santo dia. É muito bom”.

“Tem pessoas que chegam aqui com uma tristeza profunda, chorando, e depois saem muito agradecidas, porque isso aqui é uma terapia também, é muito bom. Dá uma tranquilidade, uma paz. Quando você começa a fazer o fuxico ali, você esquece do mundo, é só aquilo ali”, completa.

Outra integrante do grupo é a paulista Magda Dias. Com uma história interligada ao artesanato, pois teve passagem por barracões de escolas de samba como a Gaviões da Fiel, ela também chegou em Alagoas na pandemia e está em Arapiraca há sete meses.

Antes de ingressar na Agreal, Magda integrou a Crie Olaria, do presidente da associação, Jânio Oliveira. O ateliê de peças com argila fica situado no bairro Mangabeiras, em Arapiraca.

Magda Dias. Foto: Gustavo Santos

Em suas peças, ela prioriza a utilização de materiais recicláveis e considera o uso deles de extrema importância. Dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) revelam que somente 8,7% do lixo seco produzido no Brasil anualmente é reciclado.

“Para mim trabalhar com esse material faz parte da minha história, que é a reciclagem, né? Então eu saber que o material têxtil, que tava indo para o lixo sem destino, ele está sendo bem aplicado com a arte, né? Brincos, colares, bolsas, colchas, enfim. Então é muito importante a gente, no mundo que estamos, fazer a reciclagem. E agora tô fazendo a reciclagem com tecido também”, pontua.

Ela afirma que o aspecto mais difícil para quem empreende no Agreste de Alagoas nesse ramo é a dificuldade de comercialização. “A dificuldade é encontrar a venda, né? Então você vai, você desenvolve, você faz muitas coisas, mas você não tem um espaço para você, para fluir, né? Para você expor”.

Magali também apontou a mesma dificuldade. “A questão da produção não é difícil. Não é difícil, pelo menos na parte das coisas que eu produzo, né? Eu faço crochê, faço fuxico, faço o ponto cruz. Então, não tenho dificuldade com relação à matéria-prima, à confecção da peça, não tenho. Agora, a questão da venda, da aceitação, da procura pelo artesanato é que é difícil”.

A associação visa reduzir esse problema com a abertura de um espaço no Mercado do Artesanato, no próximo dia 15, para a exposição das peças produzidas pelos artesãos, facilitando o contato entre os trabalhadores e os clientes.

Outros projetos e novidades

Uma das novidades da Agreal é a expansão do trabalho social realizado pela entidade, que atua com mais de 250 pessoas em estado de vulnerabilidade. 

De acordo com o presidente Jânio Oliveira, uma casa no Manoel Teles foi concedida pelo padre da Igreja de Santo Antônio, do bairro Cacimbas. A proposta é levar arte e cultura para a população periférica da região.

Atualmente, a Agreal realiza a distribuição de sopa uma vez por mês no bairro Capiatã e no Manoel Teles, além de entregar alimentos da Assistência Social.

Outro trabalho realizado com a comunidade ocorre na Escola Manoel João da Silva, na comunidade do Carrasco, onde é desenvolvido o projeto Mestre nas Escolas, em parceria com a Secretaria de Cultura de Arapiraca. A iniciativa visa restaurar a cerâmica do povo quilombola e impacta entre 70 e 80 crianças.

Produtos na sede da Agreal. Foto: Gustavo Santos

Artesanato e esperança

Jânio Oliveira, que também é professor de química na Escola Professor José Quintela Cavalcanti e coordenador na Escola Padre Jefferson de Carvalho, destaca o papel da arte na transformação de vidas.

“A arte, ela traz assim, uma libertação. A arte ela traz uma melhoria na qualidade de vida. A arte acompanhada com a parte psicossocial, ela traz a questão do bem-estar do ser humano”.

“Quando a gente vê aqui as pessoas que aprendem uma profissão, aprende a criar uma peça e ela já consegue vender essa peça, já consegue pegar um dinheiro, ela começa a acreditar no potencial dela. Porque ela fez e alguém gostou e alguém comprou. Então ‘olha, o que eu fiz realmente chama a atenção de alguém’. Aí você pode perguntar: ‘Ô Jânio, mas assim, vai ser dinheiro para todo mundo?’. Não, as melhores peças estão sendo vendidas, as melhores pessoas que se destacam estão sendo vendidas. A gente tem hoje mais de 40 pessoas fazendo curso, certo? Entre jovens e adultos, fora as crianças lá da escola Manoel João, que dá em torno de umas 70, 80 crianças. E essas pessoas já estão começando a criar peça, desenvolver peça e vender peça”, diz.

É possível ficar por dentro das atividades realizadas pela Agreal por meio do perfil @agreal.al no Instagram ou entrar em contato pelo telefone (82) 99699-1316.