'Vou em casa e já volto': Vereador cassado por compra de voto foge de moto após pergunta de repórter no PR
O que deveria ser um ambiente de debate democrático na Câmara Municipal de Francisco Alves (PR) transformou-se em um cenário de fugas e silêncio. Questionados sobre um escândalo de compra de votos que rendeu a cassação de quase todos os vereadores, os parlamentares evitaram tocar no assunto.
Ao chegar à Câmara e ser abordado pela equipe de reportagem da GloboNews, sobre a acusação de que teria distribuído gasolina para eleitores em troca de apoio, o vereador Devair Porto Santos, conhecido como "Cutuca", evitou o assunto.
"Já venho aí. Vou em casa e já volto". Logo em seguida, Cutuca colocou o capacete, subiu em sua motocicleta e, ignorando a insistência do repórter sobre a gravidade das acusações, acelerou e deixou o local sem dar explicações.
Devair é um dos sete dos nove vereadores eleitos no município que tiveram seus mandatos cassados pela Justiça Eleitoral em 2026.
Apesar da decisão, como os recursos judiciais ainda não foram julgados, os parlamentares continuam exercendo suas funções normalmente.
A investigação do Ministério Público do Paraná (MPPR) revelou que a coligação "Pra Frente Francisco Alves" utilizou o poder econômico para cooptar eleitores através da distribuição de vales-combustível.
No centro do esquema estava um posto de combustíveis localizado a 10 quilômetros do centro urbano, onde a polícia apreendeu, na véspera da eleição de 2024, notas fiscais e pequenos pedaços de papel que serviam como vales para a retirada de cinco e dez litros de gasolina ou álcool.
Provas e reações
Apenas no mês de setembro de 2024, estima-se que o esquema tenha distribuído 2.100 litros de combustível.
Além das apreensões físicas, o MPPR obteve provas digitais no celular da candidata derrotada Maria Aparecida da Silva, a Cida, que em áudios prometia "o negócio lá para vocês pegarem a gasolina".
Além da fuga de Cutuca, outros vereadores demonstraram irritação ao serem confrontados. A vereadora Célia afirmou que só falaria na presença de seu advogado, enquanto o vereador Miguel disse não ter "nada a declarar" antes de se retirar do local.
O único a aceitar uma entrevista formal foi o presidente da Câmara, o vereador Cioni, que também foi condenado, mas nega qualquer participação no esquema de corrupção.
Para o promotor Filipe Rocha e Silva, a gravidade do caso reside na substituição de propostas políticas pelo uso da rede econômica para garantir votos. "A partir do momento em que o nosso voto é trocado pelo abastecimento de um veículo, isso compromete todo um sistema e prejudica a própria vida futura do município", alertou.
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