Por que o termo 'peleleca' viralizou? Especialista analisa a linguagem infantil no sexo
Os bastidores da política geralmente estimulam temas áridos, quando não vão parar também na seção policial, como vem acontecendo com o escândalo do Banco Master. Curiosamente, a suposta fraude bilionária, que está sendo investigada pela Polícia Federal, ganhou um capítulo que virou motivo de graça até em novela. É o “sexting Cebolinha".
Num dos desdobramentos da investigação, quando a PF acessou as mensagens do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, vieram à tona – extraoficialmente – conversas íntimas dele com a então namorada, Martha Graeff. Mais do que mensagens de conteúdo sexual, o que chamou a atenção foi a linguagem adotada por Vorcaro.
Como o personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, ele trocou o R pelo L, especialmente ao falar do órgão sexual feminino. Nesse sentido, “perereca” virou “peleleca”, pronúncia infantilizada que foi parar em peças de teatro (“O Céu da Língua”, com Gregorio Duvivier) e na novela “Três Graças”, numa cena com Murilo Benício e Grazi Massafera.
Apesar da evidência que ganhou com o vazamento das conversas do casal Vorcaro e Martha, a infantilização do conteúdo sexual faz parte das fantasias de muitos casais. “O uso de uma linguagem mais infantilizada no contexto sexual pode ter significados diferentes, dependendo do casal”, observa o sexólogo Fernando Ravi.
“Em alguns casos, é apenas ‘código íntimo’, uma forma leve e lúdica de se comunicar. Em outros, pode refletir certa dificuldade de sustento à comunicação erótica mais direta, recorrendo ao humor ou à suavização para lidar com vergonha, insegurança ou falta de repertório”, salienta.
De acordo com Ravi, esse tipo de estratégia é relativamente comum, já que muitas pessoas não foram educadas para falar sobre seus desejos de forma assertiva. Um sinal de alerta deve soar quando “reflete um padrão cultural que valoriza (em especial nas mulheres) corpos mais próximos de um ideal estético juvenil”, frisa o sexólogo.
Esse ideal estético pode ser percebido quando se tenta apagar características adultas naturais do desenvolvimento do corpo feminino, como pelos, escurecimento ou textura da pele da virilha e genitais. Nessa “perpetuação da juventude”, o corpo da mulher acaba sendo objetificado para atender a um desejo meramente masculino.
“O ponto central não é a infantilização em si, mas sim como o desejo é organizado em termos de poder. Grande parte da pornografia ainda é produzida sob um olhar que privilegia a excitação masculina e tende a repetir roteiros em que as mulheres somente respondem à condução dos homens no sexo”, pondera o sexólogo.
"Nesses roteiros, características como inocência, passividade ou vulnerabilidade podem ser erotizadas porque facilitam uma fantasia de domínio. Nessa lógica, aproximar a mulher de um lugar mais ‘ingênuo’ não é o objetivo final, mas um meio de reduzir sua autonomia para que o erotismo se organize mais pelo controle do que pela reciprocidade”, afirma.
Com isso, há uma redução da figura das mulheres e seus corpos a objetos de uso, e não como sujeitos com desejos. Ravi alerta, porém, que é importante não generalizar. “Existem produções e dinâmicas eróticas baseadas em consentimento, negociação, reciprocidade e satisfação mútua, em que o poder até vira tema, mas não apaga a autonomia”.
A exposição da conversa íntima de Daniel Vorcaro e Martha Graeff e, consequentemente, as referências satíricas estabelecem o que Fernando Ravi chama de “cultura sexo-negativa”, especialmente quando transforma expressão de desejo e vínculo afetivo em motivo de vergonha.
“Isso não significa que não haja espaço para humor, mas existe uma linha tênue: quando o riso deixa de ser leve e passa a policiar, constranger, desqualificar ou tentar invalidar a expressão sexual, ele contribui para manter a ideia de que o desejo precisa ser contido, escondido ou padronizado”, analisa.
Ele defende que, do ponto de vista da saúde sexual, é preciso observar o contexto. “Se aquela forma de comunicação fazia sentido dentro da relação, o julgamento externo tende a dizer mais a respeito dos tabus coletivos do que sobre o casal em si”, pondera. Nesse sentido, trocar mensagens íntimas pode, sim, beneficiar a relação.
“Quando é consensual e acontece dentro de um vínculo de confiança, o sexting está associado a maior desejo, satisfação sexual e sensação de proximidade entre parcerias. As conversas picantes funcionam como uma forma de antecipação erótica, de fazer a outra pessoa pensar na intimidade com você ao longo do dia, mantendo a conexão mesmo à distância e estimulando a comunicação sobre vontades, preferências e fantasias”, explica.
Testando limites
A estudante Melissa Duarte, de 25 anos, não vê muito problema em dar apelidos estranhos a órgãos sexuais, principalmente quando eles são permitidos dentro da intimidade do casal. “Se for uma coisa provocante entre os dois, acho que vale”, observa.
Para ela, o sexting complementa o cara a cara. “Quando você vai ter o primeiro date, serve como preparação para chegar com uma tensão sexual. Também é uma forma de ‘brifar’ a pessoa, mostrando que é ‘por aqui que eu gosto’, que ‘vou me sentir mais confortável’”, assinala.
Ela só não aceita o uso do termo “peleleca” e diminutivos, preferindo os mais comuns e clichês. “Usar palavras infantis é um pouco complicado, porque esses termos, dependendo de quais são, acabam cortando o clima”.
Já o servidor público Rafael Figueiredo, de 42 anos, acredita que tudo depende da conversa com o parceiro. “A partir dela, você vai tendo o ‘feeling’. De acordo com esse direcionamento, se a pessoa der uma abertura, além de ser bom para os dois, acho que é válido, sim (usar apelidos estranhos)”, assinala.
Camila Rocha, de 34 anos, que também é servidora pública, acha que o melhor caminho é ir “testando” os limites. “Tem quem goste de coisas esquisitas e outros já são mais conservadores. Eu, particularmente, sou mais tradicional, no sentido de não ser tão criativa assim. Mas tem gente que gosta de coisas diferentes, como sentir dor. (O ideal) é encontrar pessoas que gostam das mesmas coisas que você”.
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